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A fragmentação do Metal

Venom

O metal é um gênero que em vez de ter sido suplantado por outros gêneros se disseminou em diversos subgêneros. O que nós entendemos como sendo “metal” sofre constantemente alterações em múltiplos sentidos e se entendemos “gênero” como uma categoria sociocultural/mercadológica esse movimento é algo de ordem natural e passível de ser analisado. Tracemos algumas linhas em relação a isso a seguir:

Após um primeiro momento em que o metal começa a se firmar como gênero na década de 70, com bandas como: Raibow, Scorpions; em especial, Black Sabbath e Judas Priest (entre outras), surgem a seguir (1979 – 81) uma leva de novas bandas que tinham em comum a inclinação e a sensibilidade para o heavy metal, a juventude e a enorme ênfase nos elementos visuais.

Esse período ficou conhecido como “New Wave of British Heavy Metal” (NWOBHM), que marcou também a diáspora do heavy metal através do mundo. Surgiram então bandas como Iron Maiden, Def Leppard, que alcançaram grande sucesso, e bandas como Venom e Diamond Head, que não alcançaram a mesma mobilização, mas são de extrema importância para o futuro do gênero.

O crescimento do número e da variedade de bandas de heavy metal no começo da década de 80 levou a uma fragmentação do gênero e ao surgimento de novos códigos “subgenéricos”. Deena Weinstein aponta que entre 1983 – 84 dois subgêneros estavam em voga, cada um destacando uma característica chave do heavy metal:

O que ela chama de “lite metal”, dando ênfase aos elementos melódicos, cujos maiores expoentes e influenciadores seriam Def Leppard e Van Halen. E o “Speed/Thrash Metal”, enfatizando os elementos rítmicos, adicionando velocidade ao heavy metal. O Speed/thrash é mais ligado às tradições do metal e inaugura um posicionamento mais questionador, sendo mais voltado ao underground.

Apesar dessas duas vertentes básicas serem claramente opostas, ambas mantêm seu vinculo com o “metal”. [Até a NWOBHM, o termo “heavy metal” conseguia atender à variedade de bandas que se encaixavam nessa categoria, depois da NWOBHM, devido a essa fragmentação, “heavy metal” passou a representar as bandas e as sonoridades clássicas, que foram criadas antes desse período, e “metal” passou a ser um termo mais genérico, representando uma ampla gama de subgêneros.]

Enquanto o “lite metal” se desenvolve esticando suas fronteiras em direção à música pop, à uma pegada mais rock’n roll e a outros elementos culturais que deram origem ao “glam”, ou “hair metal” (termos normalmente usados pejorativamente) e ao hard rock pais pesado, o Speed/thrash metal adicionou elementos do punk, do hardcore, da cultura steet, entre vários outros, dando origem ao Power metal, ao Crossover e ao Death metal.

Apesar do “lite metal” ser abertamente subjugado e menosprezado por uma grande parcela de fãs que seguem uma linha mais tradicionalista e/ou radical, a autora faz uma comparação perspicaz entre a importância dos brancos para o rock, quando até então era uma música majoritariamente negra e por isso não conseguia alcançar maiores audiências, e o “lite metal” com suas baladas românticas e músicas com maior apelo comercial. Ela lembra que um grande número de adeptos do metal chega aos subgêneros mais pesados a partir dessas músicas mais comerciais, ou seja, são de alguma forma introduzido por elas no mundo do metal, devido a esse maior alcance que possuem.

A partir da década de 90 o metal se encontra amplo processo de expansão, cada vez mais fragmentado e disperso, com subgêneros sendo unidos a outros subgêneros e dando origem a novas percepções. As fronteiras que delimitam o metal são cada vez maiores e mais complexas.

Weinstein coloca os artistas/as bandas como principais agentes culturais dessas mudanças, mas não deixa de apontar a importância da audiência e das mídias nesse processo, que faz que o metal seja visto não apenas em termos musicais e criativos, mas como um sistema cultural complexo, porém inteligível.

Bibliografia:

CHRISTE, Ian. Heavy Metal – A história completa; tradução de Milena Duarte e Augusto Zantoz. São Paulo: Arx, 2010.

WEINSTEIN, Deena. Heavy Metal: the music and its culture. New York: De Capo, 1991/2000.

A importância do Punk para o Rock – ruptura e apropriaçãoes

Punk 70's

Punk 70’s Ramones

Quando na década de 60 o rock ganha sua autonomia enquanto gênero musical representante de valores e ideias caras a uma juventude que também ganhara sua autonomia a pouco; uma massa pensante, contestadora e também contraditória, passa então cada vez mais a chamar atenção, crescendo em termos de público, influência e de interesse por parte dos conglomerados multimidiáticos.

Esse “crescimento” acaba gerando uma ruptura na década de 70, como propõe Jeder Janotti, em dois vetores distintos: a valorização da música pop com algumas influência de rock e o “surgimento de formações roqueiras mais específicas que ressaltavam posicionamentos diferenciais no interior da música rock”. Entra em cena a discussão sobre autenticidade/legitimidade e mercado.

O Punk surge nas ruas Londres e Nova York no início da década de 70 “como um apanhado de desilusões sociais exacerbadas durante a crise do petróleo em 1973.” Apropriando-se poética e esteticamente do rock, somando questões do contexto sociocultural e espacial em que se desenvolviam. Ele inaugura novos métodos de produção, o “faça você mesmo”, que representa uma autonomia em relação a indústria e consequentemente, mais liberdade em termos de produção, circulação e consumo, esteticamente rompe com a ideia de virtuose, do glamour e apresenta o rock como atitude.

Sem virtuose, sem glamour

Sem virtuose, sem glamour

O Punk coloca o mercado no centro das discussões. “Ao contrário dos movimentos anteriores, o punk não envolvia apenas uma diferenciação entre ‘nós/ele’ ao redor da ideia de juventude e, sim, diferenciações no interior do próprio rock.” passa-se a discutir o que é autêntico e o que é cooptado.

Mesmo tendo sido cada vez mais absorvido pela indústria do entretenimento, o Punk segue como um gênero de apropriação, apropriando e sendo apropriado. O “Do it yourself” foi essencial para o surgimento de novas vertentes do rock e do metal, o que pode ser entendido como uma evolução, um passo à frente, na trajetória do gênero como o conhecemos hoje.

Apropriação dos símbolos

Apropriação também dos símbolos

Apesar da relevância das ideias inauguradas pelo Punk no início da década de 70 é preciso termos em mente que aquilo foi parte de um processo que envolve uma série de fatores tecnológicos, históricos, socioculturais, midiáticos e etc. e que uma ruptura não necessariamente representa o fim de um processo e o início de outro, mas muitas vezes a apresentação de um novo caminho, uma forma outra de fazer algo.

Texto referência: Rock, mídia e juventude – Cap.4 do livro Aumenta que isso ai é rock’n’roll – Jeder Janotti Jr., E-Papers, 2003

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