Straight Edge – gênero e subcultura

straigh cover

“… I’m a person just like you but I’ve got better things to do/ than sit around and smoke dope cuz I know that I can cope/ I laugh at the thought of eating ludes, Ilaugh at the though of snifing glue/ Always want to be in touch, never want to use a crutch/ I’ve got Straight Edge!…”

[Sou uma pessoa como você, mas tenho coisas melhores a fazer/ do que ficar sentado fumando maconha porque sei que posso lutar e vencer/ Dou risada da ideia de tomar sedativos, dou risada da ideia de cheirar cola / Sempre quero estar consciente, jamais quero usar uma muleta/ Eu tenho Straight Edge!…] [1]

Minor Threat, música “Straight Edge”, do EP Straight Edge, Deschord Records, 1981.

A tradução do termo, algo como “caminho reto”, faz alusão à postura adotada pelo grupo em relação à negação ao consumo de substâncias e comportamentos supostamente alienantes, prejudiciais ou auto destrutivos. O Straight Edge, a partir do início da década de 80, desenvolve-se como uma subcultura e um subgênero ligado ao hardcore punk, relacionando-se de forma comportamental e artística com a cena.

A banda de hardcore punk, Minor Threat formada em Washington DC, Estados Unidos no ano de 1980, por ex-integrantes do grupo Tenn Idles*, foi responsável por cunhar o termo “Straight Edge”. Foi com esta música que se iniciou o movimento dentro da cena punk norte americana. (Craig O’Hara p.142)

Entretanto, o “movimento” em si, nunca foi defendido de fato pelo vocalista Ian Mackaye, que achava que cada um deveria ser responsável por suas escolhas. Existem evidências de que o termo “straight edge” tenha sido usado para indicar um estilo de vida vegetariano ou vegano em algum momento do século XX. De acordo com alguns textos, existia um restaurante de comida vegetariana chamado “Straight Edge Kitchen” em Greenwich, Nova York, além de ilustrações de 1906 de um jornal chamado New York World documentando um grupo de “straight edgers” comendo no restaurante.

Segundo o pesquisador Willian Tsitsos [checar este artigo na biblioteca] o Straight Edge se desenvolveu, a princípio, fora do hardcore punk, no final dos anos 70, começo dos anos 80. Em parte caracterizado pelos vocais gritados em vez de cantados, associado a alguns ideais originais do punk como, individualismo, desdem pelo trabalho e pela escola e atitudes viva-para-o-momento. Alguns exemplos são as músicas “Keep it Clean” da banda inglesa The Vibrators (do disco “Pure Mania de 1977) e “I’m Straight” (que rejeitava o uso de drogas), do The Modern Lovers gravada em 1973 e lançada posteriormente.

“Keep It Clean”

Cocaine, heroin,
I never use speed, I never put the needle in.
Bad sex, heavy debts,
It’s too late to run when they come and snap your legs.

Just ‘cos they do it in the movies,
Doesn’t mean to say that it’s cool,
It’s only bits of plastic,
Lies projected on the wall.

Razor blades, guns and chains,
You’ll never get to heaven if you’re gonna play those games.
I do believe,
If you keep it clean then you got to succeed.

Bridge:

An’ if you wanna get on, you gotta keep your business clean. [x4]

(Keep it clean!)

Fonte

No entanto, foi na década de 80 que bandas da costa oeste dos Estados Unidos ganharam maior visibilidade e o movimento logo se espalhou atingindo outros países. Algumas bandas precursoras foram: Minor Threat, State of Alert, Government Issue, Teen Idles, The Faith, 7 Seconds, SSD, DYS, Negative FX, entre outras.

A partir da metade da década de 80, fase identificada como “youth crew” (galera jovem), influências mais fortes do metal foram sendo incorporadas, e ideias de vegetarianismo, veganismo e direito dos animais foram sendo agregadas à questão comportamental através de letras e discursos.”Youth Crew” é uma música da banda Youth Of Today, uma das mais notáveis desse período, junto com Gorilla Biscuit, Judge, Bold, Chain of Strengh, etc.

De 1990 em diante o movimento difundiu-se pelo mundo e ganhou facetas diferentes. Alguns grupos começaram a adotar posturas mais radicais, confundindo escolhas pessoais com ativismo político, enquanto outros mantêm-se focados sem precisarem impor suas ideias como ideais. Correntes minoritárias, ideologias nacionalistas, conservadoras e religiosas, assim como pontos de vista de extrema direita também podem estar presentes, sendo, em geral, mal vistos pelos straight-edgers tradicionais.

“Youth Crew”

Me you youth crew!
if the world was flat I’d grind the edge
to the positive youth my heart I pledge
X on my hand now take the oath
to positive youth to positive growth
to positive minds, to pure clean souls
these will be all my goals
walk with me and my crew
there is so much shit we can do
and we won’t stop until we’re through

Fonte

X na mão

Straight Edge Movement/Fonte desconhecida

Straight Edge Movement/Fonte desconhecida

No livro “Our Band Could Be Your Life”[2], MacKaye diz que ele e seus amigos perdiam shows de suas bandas favoritas porque nas casas de espetáculos em que tocavam eram servidas bebidas alcoólicas e os menores de 21 anos não podiam permanecer nesses locais em Washington D.C., (EUA). A banda de MacKaye, Teen Idles, fez uma turnê na costa oeste dos Estados Unidos em 1980, em São Francisco, no Mabuhay Gardens, o dono do clube teve a ideia de marcar um grande “X” nas mãos dos adolescentes com uma caneta permanente, de modo a prevenir ao barman que aqueles indivíduos não tinham idade suficiente para consumo de álcool. Quando retornaram a Washington, MacKaye deu a sugestão a vários donos de casas de show da área, para igualmente permitirem a participação dos adolescentes de sua região nos eventos, independente da venda de bebida alcoólica. Com o tempo, os adeptos da filosofia straight edge começaram a usar o “X” mesmo fora dos bares, e mesmo depois de completarem a idade legal para beberem. Assim, ele acabou se tornando o símbolo do movimento (especialmente na versão “três xis”).

Algumas pessoas interpretam os três “X” como “corpo, mente e alma”. Outros, como o símbolo da letra da música “Out of step” do Minor Threat: “I don’t drink, I don’t smoke, I don’t do drugs – At least I can fuckin’ think! […]” (“Eu não bebo, eu não fumo, eu não me drogo – Pelo menos eu consigo pensar, porra!”). Na verdade, os “três xis” (XXX) tiveram sua origem em um trabalho artístico feito pelo baterista do Minor Threat, Jeff Nelson, no qual foram substituídas as três estrelas da bandeira da cidade natal da banda (Washington D.C.) pelos “xis”, usados na capa da coletânea “Flex Your Head”, lançada pela Dischord Records em 1982.

Bandeira de Washington D.C.

Bandeira de Washington D.C.

Minor Threat - Flex Your Head EP, 1982

Minor Threat – Flex Your Head EP, 1982

É comum se ver straight edgers com o símbolo do “X” tatuado, especialmente na mão, ou ainda vê-lo pintado nas roupas, ou fixo nelas na forma de buttons, patches, etc… Alguns edgers preferem não utilizar o “X”, por vários motivos, dentre eles o de fugir da auto-rotulação.

O “X” é considerado principalmente uma marca de negação e de identidade. Colocá-lo no início e no fim de um nome pessoal ou de banda é uma prática comum entre os edgers como forma de identificação. Por isso, algumas pessoas vêem o X como um rótulo, ou uma espécie de segregação ou elitismo. Na verdade, desenhá-lo é simplesmente algo contra-cultural para os adeptos da filosofia, assim como os rebites e moicanos da cultura punk.

No Brasil o movimento chegou aos poucos.  Durante os anos 80, a postura era rara, mas presente em alguns indivíduos dentro da cena punk. O primeiro registro de algo relacionado ao straight edge no país é a foto na contracapa da coletânea “Grito Suburbano”, o primeiro disco punk lançado no Brasil (em 1982), do vocalista do Olho Seco, Fábio Sampaio, com um “X” pintado na mão.

Contracapa coletânea Grito Suburbano

Contracapa coletânea Grito Suburbano

Desde então o straight edge é observado como uma postura adotada por diversas bandas e indivíduos que circulam nas cenas harcore, punk e metal, sendo bandas totalmente straights, ou nas quais apenas alguns membros se identificam completamente, sendo os outros apenas simpatizantes. De modo geral, são indivíduos e bandas mais engajados politica e socialmente, que procuram por meio do som pesado se expressarem e passarem a sua mensagem.

[1] (O’HARA, Craig. 1999, p.141)

[2] Our Band Could Be Your Life: Scenes from the American Indie Underground, 1981-1991 de Michael Azerrad. Mais.


Bibliografia

O’HARA, Craig. A filosofia do punk – mais do que barulho. São Paulo: Radical Livros, 1992.

TSITSOS, William. Rules of Rebellion: Slamdancing, Moshing, and the American Alternative Scene, 1999

http://pt.wikipedia.org/wiki/Straight_edge

http://en.wikipedia.org/wiki/Straight_edge

http://exclaim.ca/Music/article/straight_edge_punk-complicated_contradictions_of_straight

http://pt.wikipedia.org/wiki/Minor_Threat

Outro artigo interessante

https://storify.com/Kellyyang/dont

Entrevista com Ian MacKaye  – https://www.youtube.com/watch?v=dfuay6seeZQ

Espero ter colaborado com esta pequena introdução sobre o assunto, artigos mais elaborados sobre o tema podem ser pesquisados a partir da bibliografia proposta aqui. Qualquer dúvida, crítica ou sugestão pode ser adicionada ao espaço de comentários, mediante moderação. Obrigada pela leitura.

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 3 de março de 2015, em Posts e marcado como , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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