“Eles se venderam” – O Metallica e suas estratégias para serem pop dentro do metal

Antes que qualquer fã mais aficionado venha querer tirar satisfações, o “pop” do qual eu me refiro não é, necessariamente, aquele feito pela Madonna, Rihanna, ou coisas do tipo, “pop” aqui é de popular, música consumida em larga escala e que acontece no contexto da música popular massiva. O Metallica foi a primeira banda de thrash metal a romper as barreiras do underground, no início da década de 80, e alcançar grande apelo comercial, no entanto esse rompimento seria o primeiro de muitas outras “quebras de protocolo” que os fazem carregar, já há algumas décadas, o rótulo de “vendidos” ou “traidores do movimento”. Amada e odiada/desacreditada por muitos o Metallica segue como uma das maiores bandas do rock do mundo e uma das maiores portas de entrada para novos fãs do gênero.

A acusação

Boa parte das acusações vem de uma série de expectativas não correspondidas em relação ao gênero thrash metal e posteriormente ao próprio metal, por parte da banda. Isso porque faz parte do imaginário do metal o apego a uma tradição, a uma origem e a dedicação exclusiva a um só gênero, visto que uma banda de thrash não será bem vista por uma parcela dos fãs se começar repentinamente a fazer um metal progressivo. Embora um grande número de bandas transpassem os limites e as fronteiras dentro de determinados gêneros isso acontece de forma moderada e/ou muito bem articulada.

Em 1982, Lars Urich (bateria) e James Hetfield (na voz, guitarra e baixo, nesta gravação) lançaram o primeiro registro oficial com o nome “Metallica”, a música era “Hit the Lights”, lançada na coletânea independente Metal Massacre. Para fãs “pós-Black álbum” ou acostumados apenas a gravações mais recentes os primeiros registros no Metallica soariam um tanto “estranhos”, isso porque até este momento a sonoridade da banda era um tanto fiel as origens do gênero, era algo muito mais ríspido, sujo e agressivo do que faixas como “Nothing Else Metters” ou “The Unforgiven” (lançadas praticamente 10 anos depois).
O movimento thrash metal começava a tomar forma na área da baía de São Francisco nos Estados Unidos, com uma série de bandas compostas basicamente por garotos que já ouviam as bandas inglesas de speed metal e da new wave of british heavy metal e agora estavam em busca de uma sonoridade ainda mais pesada e rápida. Essas bandas chegam a competir entre si por quem fazia o som mais rápido, mais pesado ou as letras mais violentas e ou malignas, essas foram as bases do thrash metal nos Estados Unidos.

Continuação

Até 1986, quando lançaram seu álbum clássico, “Master of Puppets”, o Metallica era entendido como fenômeno do thrash, mesmo que ousassem além da conta nesse sentido, para muitos fãs mais puristas o Metallica deixou de ser thrash em “Ride the Lightinig”, seu segundo disco em 1984. A banda investia em composições mais longas e mais elaboradas, afastando-se das disputas sobre quem tocava mais rápido, mais insano e coisas do tipo.
Nessa época a banda já tentava se desvencilhar do rótulo thrash, diferente de outras bandas, que já adotavam o termo como forma de identificação, com o passar do tempo muitas bandas surgiram dentro desse gênero, talvez como estratégia de mercado, buscando nichos cada vez mais prósperos.
Porém o Metallica queria mais que os nichos, mais que os mercados segmentados. Em 1991 o álbum homônimo, “Metallica”, com sua capa toda preta onde mal se consegue identificar o nome da banda, parecia simbolizar a sua morte, o que para alguns fãs ocorreu de fato. No entanto com esse disco a banda alcançou níveis estratosféricos, entrando para o hall dos melhores do mundo, algo bastante distante da ideia que se tem ainda hoje de underground.
Os fãs “das antigas” que resistiram às baladinhas românticas do “Black Album”, tiveram que suportar golpes cada vez mais dolorosos. Os dois discos que se seguiram tinham uma pegada new metal, gênero que surgiu e foi popular na época, os integrantes cortaram os cabelos, pintaram as unhas e fizeram videoclipes todos cheios de frescuras – para o padrão metal de fazer clipe na época – nessa época também a MTV guardava um bom espaço em sua programação para bandas de rock e metal, era a Ascenção do grunge. Isso sem contar todo bafafá da Naspter, com Lars, um dos maiores pirateadores de fitas K7 da costa leste nos tempos de underground, acusando os fãs de roubarem as suas músicas, isso sem falar no disco fraco e mal gravado “St. Anger”de 2003.
Quem parou de ouvir depois de “St Anger” ainda não pegou o LULU, que é a prova que o Metallica sempre pode nos surpreender (para o mal). “Death Magnetic” lançado em 2008, faz parecer que a banda voltou um pouco ao seu eixo original, o disco trás boas composições e os shows ao vivo da banda continuam regados por clássicos, muitos deles pré Black álbum.

O Metallica tem vários atributos que ligam eles a verdadeiros fenômenos pop, mas o que os faz ser a mair banda de metal da atualidade:

A Defesa

Simon Frith defende que o pop, como gênero musical surgiu como oposição ao rock, embora ambos pertençam ao mesmo contexto, o da música popular massiva, proposto por Jeder Janotti. Para Frith não haveria necessariamente uma oposição entre os termos, mesmo que signifiquem coisas supostamente antagônicas, pois ambos utilizam-se de mais ou menos as mesmas estratégias para o seu funcionamento.
Ambos dependem da grande mídia, ou de um grande espaço na mídia segmentada para se estabelecerem como fenômenos comerciais e culturais
Dependem de uma estrutura formada por profissionais qualificados e de renome trabalhando junto com eles, desde produtores musicais, profissionais de marketing e comunicação a técnicos de som, luz iluminação, que completam as suas performances ao vivo. E é claro precisam de bons produtos para que sejam consumidos, o ofereça aos fãs formas de se diferenciarem e expressarem seu sentimento pela banda. Além disso, tem toda a narrativa gerada pelos meios de comunicação que criam novas esferas de atuação e diferentes discursos sobre a banda/artista.
Para Jeder Jannoti a maior diferenciação entre mainstream (pop) e underground (rock) são as estratégias de consumo, mais amplo e mais segmentado, respectivamente. Embora essa simplificação acabe não deixando muito claro o papel de bandas como o Metallica que se comunica e circula largamente entre ambos os meios.
Os gêneros musicais, entre outras coisas, são categorias comerciais, que ajudam a direcionar o consumo, bem como criam discursos que nos ajudam a nos posicionarmos em relação ao mundo e a sociedade. Primeiramente associados ao thash metal, gênero de origem underground, a banda rompeu com suas origens e com alguns protocolos do gênero, como adotarem uma imagem e uma sonoridade mais comercial. O que chocou uma parcela de fãs, mas por outro lado conquistou um grande número de outros.
A maior parte das bandas que surgem ou que existem desejam fazer sucesso, seja em maior ou menor escala, para fazer sucesso é preciso vender, ou ser consumido de alguma forma, neste sentido, “se vender”, faz parte do negócio do música, o que torna essas acusações sobre o Metallica em parte sem fundamento. É preciso saber o que está em jogo, aparentemente na equação do Metallica a banda só fez ganhar. Como fã e não tão radical, continuo gostando da banda mesmo sofrendo a cada manobra desequilibrada de Sir Lars Urich.
Embora o Metallica rompa com uma série de protocolos que foram propostos em sua origem, hoje a banda continua a se comunicar com o metal e angariar uma base poderosa de novos fás, que por meio deles vão se aprofundando, o conhecendo novas bandas, ou seja, eles são fundamentais para a manutenção do gênero, fundamentais também como produtores de discurso.

Bibliografia

FILHO, Jorge Luiz Cunha Cardoso. Caos, peso e celebração: uma abordagem de Heavy Metal a partir da noção de gênero midiático. XXVIII Intercom. Rio de Janeiro, 2005.

JANOTTI JÚNIOR, Jeder. Dos gêneros textuais, dos discursos e das canções: uma proposta de análise da música popular massiva a partir na noção de gênero midiático. Salvador. inédito, 2005.

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 23 de junho de 2013, em Posts e marcado como , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Gostei do seu texto!
    Não os considero vendidos… Até porque, quem é purista demais, pra não decepcionar e perder fãs, poderia ser considerado vendido também, né não?
    O que eu acredito é que o jeito deles de ser tem muito a ver com a herança do Cliff, de simplesmente fazer o que se tem vontade: “Life is ours, we live it our way” e pronto.

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