Resenha “Heavy Metal no Rio de Janeiro e Dessacralização de Símbolos Religiosos: A Música do Demônio na Cidade de São Sebastião das Terras de Vera Cruz” 2006. Pedro Alvim, tese.

*”Heavy Metal no Rio de Janeiro e Dessacralização de Símbolos Religiosos: A Música do Demônio na Cidade de São Sebastião das Terras de Vera Cruz”. Autor: Pedro Alvim Leite Lopes. Orientador: Prof. Dr. Gilberto Alves Velho. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Museu Nacional – UFRJ como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Social). Rio de Janeiro, 2006.

O local da pesquisa feita por Pedro Alvim é a cidade do Rio de Janeiro e arredores, o foco de seu discurso é a apropriação de símbolos religiosos e seus valores tidos como dados e que são reapropriados – transformados em convenções artísticas pelo metal e seus atores. Para o autor este seria o principal motivo para os preconceitos e ataques sofridos pelo metal em diferentes frentes, principalmente numa cidade como o Rio de Janeiro, altamente ligada à tradições religiosas, não apenas a cristã, e com uma “tradição musical” bastante distante da realidade do metal.

São várias passagens interessantes, como quando somos levados a um verdadeiro tour da entrada da Rua Ceará, na Praça da Bandeira, até o seu limite após a esquina com a Rua Sotero dos Reis. Pedro Alvim descreve um cenário detalhado desses locais da cena carioca, passando pelo Heavy Duty, Garage, “bar do morador”, “bar dos punks”, “bar dos grunges”, bem como seus públicos “específicos”.

O autor passa por muitos aspectos e questões ainda carentes de serem mais profundamente pensados/analisados, como a relação underground/mainstream e a própria configuração da “indústria”, como alternativas utilizadas no meio underground vem sendo adotadas ou reapropriadas pela indústria, que a princípio pode ser entendida como sinônimo de mainstream, ou vice versa, estratégias mainstream sendo adotadas pelo underground, no que isso implicaria? Outro ponto que é levantado no texto é a questão da “auto sustentabilidade” do meio, se isso seria ou é viável.

Pedro Alvim faz um grande estudo passando por várias bandas, locais e eventos da cena carioca, por vezes citando “Garage”, “Rato no Rio”, “Caverna”, “Todas as Tribos”; “Dorsal Atlântica”, “Taurus”, “Bíblia Negra”, “Metalmorphose, etc. O que sem dúvidas, legitima e confere peso ao sei trabalho.

No entanto por razões ligadas às minhas linhas de pensamento em relação a alguns discursos produzidos (coisa que toda e qualquer pesquisa está sujeita, devido a particularidade de cada pesquisador.) eu retiraria o foco dado a algumas citações de Carlos Lopes, vocalista da Dorsal Atlântica, que sempre que tem a oportunidade proclama para si sua parte na “criação do metal no Brasil” [como se cada um envolvido, uns mais outros menos, também não fizesse parte disso, enfim.].

“O título “Heavy metal no Rio de Janeiro e dessacralização de símbolos religiosos: a música do demônio nas na cidade de São Sebastião das Terras de Vera Cruz” ressalta o conflito entre símbolos cristãos presentes na fundação do país, no próprio nome de batismo do Brasil, bem como no da cidade do Rio de Janeiro, associado a um santo católico, e as convenções artísticas do heavy metal que transfiguram símbolos religiosos dessa e de outras tradições, esvaziados de seu caráter de dado constituinte da realidade, convenções essas que têm por avatar mor o demônio. Ao converter símbolos sagrados da Bíblia e de tradições pagãs, bem como motivos extraídos da literatura e do cinema de terror, em convenções artísticas positivadas, ou associá-las de forma crítica e desnaturalizadora a males terrenos produzidos pela ação humana sem nenhuma agência sobrenatural, o heavy metal se choca contra milenares ethos e visão de mundo, através principalmente da transvaloração dos símbolos que os incorporam, o que promove a incompreensão e a rejeição por parte dos que partilham de determinadas perspectivas cosmológicas ou por estas são influenciados.” (Pedro Alvim Leite Lopes, UFRJ, 2006. p.183)

Leia online ou baixe o texto pelo link: http://www.bdae.org.br/dspace/bitstream/123456789/1590/1/tese.pdf

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 4 de junho de 2013, em Posts, Resenhas e marcado como , , , , , , , , , , , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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