Arquivo mensal: janeiro 2013

Primeira e segunda geração do Rock – Década de 50, EUA

Rock, década de 50

Rock, década de 50

Se o Rock tem dois pais, não são eles nem Chuck Berry, nem Elvis Presley. Sonoramente ele provém, de forma básica, da mistura entre o Rhythm and Blues negro e o Country and Western (música dos brancos rurais) cujas maiores referências são respectivamente:

Rhythm and blues negro (Louis Jordan)

“Buzz Me” música de 1940. Fonte

Country and Western (música dos brancos rurais) – Hank Williams

“Move It Over”, 1947 um grande hit da época. Fonte

O contexto histórico:

Após a Segunda Guerra Mundial o Estados Unidos encontra-se em um período de grande crescimento, tanto econômico, quanto populacional (o “Baby Boom”). O país afirma-se como superpotência capitalista, o “American Way of Life” expande-se como modelo de vida. No entanto, a discriminação racial ainda é muito forte. No sul ainda havia segregação racial.

Neste contexto surge também a “cultura jovem”. Com o crescimento econômico e populacional os jovens passavam a representar uma parcela cada vez maior e mais representativa da população norte americana. Abre-se um novo e lucrativo nicho de mercado, jovens com poder aquisitivo que queriam consumir bens e lazer; comprar discos, ouvir rádio, ver televisão, ir às lanchonetes, sair para dançar, etc.

É interessante notarmos que até antes dessa época a ideia de “jovem” existia apenas como faixa etária, até mesmo as crianças eram tratadas como “mini adultos”. Os jovens queriam ser exatamente como seus pais, quando muito, entrar na vida adulta e almejar uma possibilidade de ascensão social maior. Os problemas e anseios típicos dessa fase da vida eram ignorados, não se pensava o jovem como categoria social.

A Primeira Geração 1953 – 1955

O Rock’n’Roll começa a surgir, as músicas eram uma mistura de R&B (Rhythm and blues); Country and Western; Música Gospel e Blues.

Antoine “Fats” Domino: “The fat man”, gravada em 1949, em 1953 vende mais de 1 milhão de cópias um número de vendas vultuoso para a época.

Sua performance era bastante contida, seus vocais era suaves e os temas de suas músicas eram românticos.

Bill Haley: “Rock Around The Clock”, gravada em 1954, trilha do filme Blackboard Jungle (Sementes da Violência).

Bill Haley teve sua entrada no mundo musical facilitada por questões raciais, “Haley e sua banda foram primordiais ao divulgar a música conhecida como ‘Rock and Roll’ entre o público branco, depois de anos considerada como um movimento underground.” Fonte

Chuck Berry: “Johnny B. Goode”, canção de rock escrita em 1955 por Chuck Berry e lançada por ele próprio em 31 de março de 1958. Chuck Berry escrevia com extrema sensibilidade sobre o universo adolescente que despontava na época.

“Johnny B. Goode” é uma das primeiras músicas sobre a dificuldade de se viver de rock. Apesar de seu grande talento, visão, carisma e performance contagiantes, o “momento” não era favorável à sua coroação como “Rei do Rock”. Como é possível observar neste vídeo, e em vários outros dessa primeira geração, apesar dos artistas serem negros a plateia é majoritariamente branca, a questão racial, entre outras, ainda era muito forte.

Little Richard: “Tutti Frutti”, posteriormente regravada por Elvis Presley a música de 1955 fui um dos primeiros sucessos de Little Richard a estourar nas paradas.

Embora se destaque por sua performance exótica (ternos, botas, mantos multicoloridos, maquiagem; pulava no palco, atirava-se no piano e arrancava roupas no palco ) é fortemente influenciado por pelo modo de cantar gospel, com gritos e falsetes.

A Segunda Geração 1956 -1960

O Rock cada vez mais presentes nas paradas, a indústria cultural norte americana em franca expansão e os jovens querendo viver suas vidas diferentes de seus pais, formaram condições ideais para a coroação do Rei Rock e do Rock and Roll como voz da juventude.

“‘O momento’ foi um curto período durante o qual adolescentes brancos começaram a ser influenciados pelo rhythm and blues e pelos roqueiros clássicos através da veiculação pelo rádio. Estimulados pelo novo ritmo e pelas letras sugestivas, eles estavam prontos para reconhecer e abraçar um messias do rock. A equipe – divulgação e gerenciamento brilhantes do coronel Tom Parker e o som e influência da gravadora RCA – percebeu o momento, capturou-o e vendeu-o para a América.” (FRIEDLANDER, 2012, p.68)

Elvis Presley: “Heartbreak Hotel” 1956 uma das primeiras músicas gravadas pela RCA.

A carreira de Elvis pode ser dividida em três fases. A primeira, marcada pela gravadora Sun Records, onde grava “That’s All Right (mama)” do bluesman negro “Big Boy” Crudup, fazendo uma síntese entre blues e country, a música é um dos marcos do rockabilly. A segunda fase já na RCA, onde se torna o “rei do rock”, gravando vários filmes, programas de TV e singles. A terceira fase é pós serviço militar, já um tanto perturbado psicologicamente e dependente químico.

Jerry Lee Lewis: “Great Balls of Fire” 1957 pela Sun Records. Um escândalo na época (seu casamento secreto com uma prima de 13 anos) o tirou da disputa pela coroa de Rei do Rock.

Jerry Lee Lewis, assim como Little Richard, era muito agitado no palco e “podia tocar piano com qualquer parte do corpo que alcançasse o piano”, alguns produtores lhe forneciam mais de um instrumento pois sabiam de um deles poderia acabar no lixo depois da performance.

Buddy Holly: “That’ll Be the Day”1957. Foi o maior cronista dos ingênuos amores da juventude, teve um “empurrãozinho” do amigo Elvis Presley.

Além da formação clássica, baixo, bateria e guitarra que ajudou a consolidar, foi também o primeiro roqueiro clássico a popularizar a Stratocaster, guitarra produzida pela Fender (ver mais sobre Stratocaster).

The Everly Brothers: “Wake Up Little Suzie” 1957. Diferente dos outros artistas do rock clássico, Don e Phil Everly já nasceram no meio musical, aos 8 anos eles excursionavam pelo país com seus pais.

“Tanto o estilo de harmonia vocal… e o rico acompanhamento acústico são claramente encontrados nas primeiras músicas dos Beatles.” Terence O’Grady

Fim do primeiro ciclo

A ideia de transgressão presente no rock desde seu início, foi aproveitada como marketing pela indústria, principalmente no segundo momento. Artistas negros foram substituídos por jovens talentos brancos, apadrinhados pelas grandes gravadoras. Em 1958 Elvis se alista no exército, aqueles que não cederam às pressões do governo, das gravadoras e de líderes civis, foram postos de lado ou neutralizados. “Berry foi indiciado, Lewis, marginalizado, Little Richard tornou-se religioso, Holly morreu, Elvis alistou-se e Haley tinha quase desaparecido.(…) A América teria de esperar a invasão inglesa e os Beatles para ouvir novamente os acordes do rock clássico.” (FRIEDLANDER, 2012, p.92)

Estudar a genealogia do Rock em sua origem nos ajuda a compreender seus diversos desdobramentos futuros, configurando e reconfigurando nossa compreensão sobre o gênero. Devo a maior parte deste post à amiga Melina Santos, também headbanger e pesquisadora dos assuntos metálicos e agradeço também a Dower Lopes que ajudou gentilmente a revisá-lo.

Bibliografia:

FRIEDLANDER, Paul. Rock and Roll. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012.

Por: Natália Ribeiro e Melina Santos

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O Abismo – to think

Lars Metal Injection

“METALLICA Made How Much Money Touring Last Year?” ver matéria

Metallica está na oitava posição dos artistas que mais faturam em turnês. 86 milhões de dólares por cercar de 30 shows, numa média de 4 milhões de dólares por show.

O abismo entre bandas com “suporte industrial” e bandas que sem esse “suporte” só faz crescer e mesmo assim muitos preferem tentar atravessar esse abismo, sendo que uma parcela ínfima consegue.

Não é o caso de “parar de tentar”, mas de pensar em novos meios, do lado de cá da barreira?

Não é o caso de pensar esse “abismo”?

 

A importância do Punk para o Rock – ruptura e apropriaçãoes

Punk 70's

Punk 70’s Ramones

Quando na década de 60 o rock ganha sua autonomia enquanto gênero musical representante de valores e ideias caras a uma juventude que também ganhara sua autonomia a pouco; uma massa pensante, contestadora e também contraditória, passa então cada vez mais a chamar atenção, crescendo em termos de público, influência e de interesse por parte dos conglomerados multimidiáticos.

Esse “crescimento” acaba gerando uma ruptura na década de 70, como propõe Jeder Janotti, em dois vetores distintos: a valorização da música pop com algumas influência de rock e o “surgimento de formações roqueiras mais específicas que ressaltavam posicionamentos diferenciais no interior da música rock”. Entra em cena a discussão sobre autenticidade/legitimidade e mercado.

O Punk surge nas ruas Londres e Nova York no início da década de 70 “como um apanhado de desilusões sociais exacerbadas durante a crise do petróleo em 1973.” Apropriando-se poética e esteticamente do rock, somando questões do contexto sociocultural e espacial em que se desenvolviam. Ele inaugura novos métodos de produção, o “faça você mesmo”, que representa uma autonomia em relação a indústria e consequentemente, mais liberdade em termos de produção, circulação e consumo, esteticamente rompe com a ideia de virtuose, do glamour e apresenta o rock como atitude.

Sem virtuose, sem glamour

Sem virtuose, sem glamour

O Punk coloca o mercado no centro das discussões. “Ao contrário dos movimentos anteriores, o punk não envolvia apenas uma diferenciação entre ‘nós/ele’ ao redor da ideia de juventude e, sim, diferenciações no interior do próprio rock.” passa-se a discutir o que é autêntico e o que é cooptado.

Mesmo tendo sido cada vez mais absorvido pela indústria do entretenimento, o Punk segue como um gênero de apropriação, apropriando e sendo apropriado. O “Do it yourself” foi essencial para o surgimento de novas vertentes do rock e do metal, o que pode ser entendido como uma evolução, um passo à frente, na trajetória do gênero como o conhecemos hoje.

Apropriação dos símbolos

Apropriação também dos símbolos

Apesar da relevância das ideias inauguradas pelo Punk no início da década de 70 é preciso termos em mente que aquilo foi parte de um processo que envolve uma série de fatores tecnológicos, históricos, socioculturais, midiáticos e etc. e que uma ruptura não necessariamente representa o fim de um processo e o início de outro, mas muitas vezes a apresentação de um novo caminho, uma forma outra de fazer algo.

Texto referência: Rock, mídia e juventude – Cap.4 do livro Aumenta que isso ai é rock’n’roll – Jeder Janotti Jr., E-Papers, 2003

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