Establishment x Outsiders, o caso de Wolfgang Amadeus Mozart e o músico no século XVIII


Resenha do livro “Mozart, sociologia de um gênio” de Norbert Elias* 

Mozart é incontestavelmente um grande gênio do que hoje conhecemos como “música clássica”, aos 4 anos executava peças musicais bastante complexas, aos 6, ele a irmã já saiam em turnê se apresentando em concertos pela Europa. Nasceu em 1756 e aos 35 anos morreu sem ter seu talento reconhecido e sem um cargo numa corte à sua altura, como tanto desejara.
Mozart tinha pleno conhecimento de seu talento [vale destacar aqui que à época o conceito de “gênio” ainda não estava formado] e recusava-se a viver na limitada corte de Salzburgo, no entanto, as perspectivas da época para músicos que pretendiam trabalhar de forma “independente” não eram nada boas.
A orquestra permanente e remunerada era item essencial de prestígio para um governo soberano. Os músicos da corte eram empregados como outros quaisquer, Mozart e o pai eram empregados na corte de Salzburgo, o que lhes rendia o suficiente apenas para manter a família com certo conforto:

“O que chamamos de corte principesca era, essencialmente, o palácio do príncipe. Os músicos eram tão indispensáveis nestes grandes palácios quanto os pasteleiros, os cozinheiros e os criados, e normalmente tinham o mesmo status na hierarquia da corte. Eles eram o que se chamava, um tanto pejorativamente, de criados de libre.” (ELIAS, 1995 p.18)

O músico tinha que atender a demanda do príncipe e sua composição tinha que agradar a seu gosto, embora o príncipe muitas vezes mal entendesse do processo de composição de uma obra. A música era feita essencialmente para atender a demanda de seu público, não havia a compreensão da individualidade criativa do artista. O principal financiador da música no século XVIII era a aristocracia, concertos e óperas eram feitos sob encomenda para os nobres.

“Na fase da arte artesanal, o padrão de gosto do patrono prevalecia, como base para a criação artística, sobre a fantasia pessoal de cada artista.” (ELIAS, 1995 p.47)

Como Elias aponta , a vida de Mozart ilustra a situação de grupos burgueses outsiders numa economia dominada pela aristocracia de corte, Morzart queria viver para sua arte e por meio dela, mas sem depender, e mais que isso, ter de se submeter, ao gosto da classe superior; do establishment. No entanto, no momento histórico do qual fazia parte não havia o ambiente e as condições para que músicos outsiders se desenvolvessem enquanto tal.
Establishment x Outsiders retoma a luta da burguesia contra a aristocracia que ocorria mais ou menos naquele período, se Morzart não conseguia colocação nas cortes (cargos permanentes em cortes nobres, como citado acima) ele teria de buscar novos meios ganhar a vida com a música. Norbert Elias diz que além das composições de Morzart não se encaixarem ao público burguês outsider, não havia um maior desenvolvimento na área de publicações musicais. 
Beethoven nasceu quase 15 anos depois de Mozart, e já conseguiu aproveitar-se desse mercado em amplo desenvolvimento e também da difusão de concertos para uma audiência composta de pagantes, e não de convidados. Elias aponta uma mudança estrutural na posição do artista.
Conforme vai ocorrendo a substituição da aristocracia de corte por um público de profissionais burgueses enquanto classe superior e, portanto, como consumidores de obras de arte, vai ampliando-se o público e as possibilidades de subsistência do músico, ao mesmo tempo que o artista foi ganhando mais autonomia em sua produção o que significa um maior empoderamento perante a audiência.
O que torna esse livro especial e a tentativa de Norbert Elias de desmistificar a ideia de gênio nato sobre Mozart, muitas vezes usando da psciologia, e a sua análise por um viés social do ambiente no qual viveu o artista. O livro é uma obra inacabada do autor, que, no entanto, nos serve a muitas questões no que diz respeito ao papel e ao valor do músico na sociedade e ao próprio mercado musical, entre outras.
Alguns pontos levantados no texto podem ser trazidos para o momento atual, como:
  • A música financiada pelo Estado – músicos, projetos e coletivos que sobrevivem por meio de editais e verba pública. Qual é o poder de autonomia desses projetos?
  • A relação artista e público – a música para servir e entreter x o poder de sublimação da criação artística livre
  • A relação Establishment x Outsiders comparada, o establishment como as grandes corporações midiáticas e os outsiders como os selos independentes, por exemplo.
*Mozart, sociologia de um gênio / Norbert Elias; organizado por Michael Schrõter; tradução, Sérgio Góes de Paula; revisão técnica, Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. 
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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 17 de setembro de 2012, em Posts. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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