Arquivo mensal: setembro 2012

Metal com bateria de carnaval – Novo projeto do músico Alexandre de Orio misturando Metal com ritmos brasileiros

Alexandre de Orio, guitarrista da banda Claustrofobia, Quarteto de guitarras e autor do livro “Metal Brasileiro: Ritmos Brasileiros Aplicados na Guitarra Metal”, acaba de lançar um novo e audacioso projeto chamado “Projeto Alexandre de Orio & Bateria S/A”.
Orio juntou-se ao grupo de percussão “Bateria S/A”, bateria universitária bicampeã da FEA-USP na intensão de tocar grandes clássicos do Rock e do Metal numa instrumentação peculiar, somente guitarra e percussão. O grupo também pretende compor músicas autorais nesta formação, aliando o peso da percussão com a agressividade dos riffs de guitarra. A idéia é utilizar a percussão de duas formas, tanto simulando uma bateria mesmo, quanto adicionar ao arranjo algum outro ritmo como samba, baião, maracatu etc – desde que isso se adeque a música.
A primeira música escolhida para filmar e lançar este trabalho foi um dos maiores clássicos do metal, “Cowboys from Hell” do Pantera. Alexandre comenta que é uma das melhores bandas pra fazer esse link, pois há muito groove nos riffs de guitarra e que a soma do peso da guitarra com o da percussão dá um grande impacto. 
O projeto é praticamente uma extensão do livro “Metal Brasileiro” lançado no primeiro semestre de 2012 e que agora apresenta um novo olhar de aplicação do material. Em breve sairá à versão inglês. Mais informações www.brazilianmetal.com
Confira também a entrevista feita com o músico para o Rockalogy em: http://rockalogy.blogspot.com.br/2012/02/metal-com-samba-entrevista-com.html
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Música boa e música ruim, quem pode determinar esses valores?

Euterpe, musa que preside à música. Uma das nove musas da mitologia grega, filhas de Zeus e Mnemósine.


Entender de música não quer dizer apenas ser dotado de conhecimentos à cerca de ritmo, melodia e partituras, entre outros saberes necessários ao “fazer” musical, para entender a música é preciso entender o que ela representa e em qual contexto cultural ela se insere.

Antes de haver música, é preciso haver o som, e para haver música é preciso reconhecer determinado som como música. Como Andre Stangl e Reinaldo Pamponet Filho apontam em seu texto, “É bem possível que a organização dos sons e a criação dos primeiros instrumentos envolvessem formas rituais e significados místicos”.

Rituais de modo geral, são demarcadores culturais, assim como tribos indígenas podem ser diferenciadas pelo modo como cantam e dançam, na sociedade atual, os rituais continuam a funcionar da mesma forma, e a forma como cantamos e dançamos continua nos ajudando a demarcarmos o que somos em nossa sociedade.

No entanto, citando os próprios autores, “na modernidade, a música despencou do céu e foi transformada em produto e mercadoria.” Nossa percepção sobre a música mudou com o surgimento de novas técnicas e o desenvolvimento da indústria musical, no entanto continua sendo culturamente moldada. 

“Não existe sentido no som fora da cultura. Somente a cultura nos permite perceber um som como música, a cultura do som é ser música. (…) Em outras palavras, ainda que se discuta o gosto, a escolha não é entre o bom e o mau gosto, mas sim a opção entre um ou outro valor musical culturalmente compartilhado.” (p. 120, 121)

Embora o parágrafo acima seja muito útil a uma definição de música culturamente determinada, não podemos esquecer que a música também possui uma estrutura e que a meu ver não deve passar alheia a uma análise. Por mais que sua estrutura sirva a uma determinada finalidade, animar, fazer dançar, vislumbrar, incomodar, etc. isso se faz por diferentes formas, mais ou menos objetivas, mais ou menos efetivas e que tem a ver tanto com a forma como foi composta, quanto aos sentimentos que por ela pretendem ser acionados. 
Irineu Franco Perpetuo, Sergio Amadeu Silveira (orgs.). O futuro da música depois da morte do CD – São Paulo: Momento Editorial, 2009.

Establishment x Outsiders, o caso de Wolfgang Amadeus Mozart e o músico no século XVIII


Resenha do livro “Mozart, sociologia de um gênio” de Norbert Elias* 

Mozart é incontestavelmente um grande gênio do que hoje conhecemos como “música clássica”, aos 4 anos executava peças musicais bastante complexas, aos 6, ele a irmã já saiam em turnê se apresentando em concertos pela Europa. Nasceu em 1756 e aos 35 anos morreu sem ter seu talento reconhecido e sem um cargo numa corte à sua altura, como tanto desejara.
Mozart tinha pleno conhecimento de seu talento [vale destacar aqui que à época o conceito de “gênio” ainda não estava formado] e recusava-se a viver na limitada corte de Salzburgo, no entanto, as perspectivas da época para músicos que pretendiam trabalhar de forma “independente” não eram nada boas.
A orquestra permanente e remunerada era item essencial de prestígio para um governo soberano. Os músicos da corte eram empregados como outros quaisquer, Mozart e o pai eram empregados na corte de Salzburgo, o que lhes rendia o suficiente apenas para manter a família com certo conforto:

“O que chamamos de corte principesca era, essencialmente, o palácio do príncipe. Os músicos eram tão indispensáveis nestes grandes palácios quanto os pasteleiros, os cozinheiros e os criados, e normalmente tinham o mesmo status na hierarquia da corte. Eles eram o que se chamava, um tanto pejorativamente, de criados de libre.” (ELIAS, 1995 p.18)

O músico tinha que atender a demanda do príncipe e sua composição tinha que agradar a seu gosto, embora o príncipe muitas vezes mal entendesse do processo de composição de uma obra. A música era feita essencialmente para atender a demanda de seu público, não havia a compreensão da individualidade criativa do artista. O principal financiador da música no século XVIII era a aristocracia, concertos e óperas eram feitos sob encomenda para os nobres.

“Na fase da arte artesanal, o padrão de gosto do patrono prevalecia, como base para a criação artística, sobre a fantasia pessoal de cada artista.” (ELIAS, 1995 p.47)

Como Elias aponta , a vida de Mozart ilustra a situação de grupos burgueses outsiders numa economia dominada pela aristocracia de corte, Morzart queria viver para sua arte e por meio dela, mas sem depender, e mais que isso, ter de se submeter, ao gosto da classe superior; do establishment. No entanto, no momento histórico do qual fazia parte não havia o ambiente e as condições para que músicos outsiders se desenvolvessem enquanto tal.
Establishment x Outsiders retoma a luta da burguesia contra a aristocracia que ocorria mais ou menos naquele período, se Morzart não conseguia colocação nas cortes (cargos permanentes em cortes nobres, como citado acima) ele teria de buscar novos meios ganhar a vida com a música. Norbert Elias diz que além das composições de Morzart não se encaixarem ao público burguês outsider, não havia um maior desenvolvimento na área de publicações musicais. 
Beethoven nasceu quase 15 anos depois de Mozart, e já conseguiu aproveitar-se desse mercado em amplo desenvolvimento e também da difusão de concertos para uma audiência composta de pagantes, e não de convidados. Elias aponta uma mudança estrutural na posição do artista.
Conforme vai ocorrendo a substituição da aristocracia de corte por um público de profissionais burgueses enquanto classe superior e, portanto, como consumidores de obras de arte, vai ampliando-se o público e as possibilidades de subsistência do músico, ao mesmo tempo que o artista foi ganhando mais autonomia em sua produção o que significa um maior empoderamento perante a audiência.
O que torna esse livro especial e a tentativa de Norbert Elias de desmistificar a ideia de gênio nato sobre Mozart, muitas vezes usando da psciologia, e a sua análise por um viés social do ambiente no qual viveu o artista. O livro é uma obra inacabada do autor, que, no entanto, nos serve a muitas questões no que diz respeito ao papel e ao valor do músico na sociedade e ao próprio mercado musical, entre outras.
Alguns pontos levantados no texto podem ser trazidos para o momento atual, como:
  • A música financiada pelo Estado – músicos, projetos e coletivos que sobrevivem por meio de editais e verba pública. Qual é o poder de autonomia desses projetos?
  • A relação artista e público – a música para servir e entreter x o poder de sublimação da criação artística livre
  • A relação Establishment x Outsiders comparada, o establishment como as grandes corporações midiáticas e os outsiders como os selos independentes, por exemplo.
*Mozart, sociologia de um gênio / Norbert Elias; organizado por Michael Schrõter; tradução, Sérgio Góes de Paula; revisão técnica, Renato Janine Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. 
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