Tatuagens, Piercings e Alargadores na Cena Metal

Post revisitado e agora com bibliografia disponível em:
Num evento underground é notável o grande número de pessoas que possuem algum tipo de marca corporal, tal como piercing e tatuagem, e justamente por ser algo notável é que se faz relevante um esforço para entendermos melhor esse fenômeno e como ele se relaciona com a cena.
As marcas corporais possuem uma longa história. Até o século XVIII no Ocidente eram violentamente combatidas e condenadas pela igreja, que considerava uma blasfêmia, pois, se o corpo foi feito à imagem e semelhança de Deus, modificar essa imagem equilave a desfigurar sua “perfeição natural”, segundo a tradição judaico-cristã as diversas marcas permanentes do corpo distinguiam o pagão do crente, o ímpio do fiel. Durante o período medieval elas estiveram intrinsecamente ligadas às culturas pagãs e carregavam significados mágicos e protetores, assim como esteve presente entre povos bárbaros (povos guerreiros), como os Celtas e os Vikings. 
“No final do século XVIII que as marcas corporais começaram a popularizar-se no contexto da sociedade ocidental européia”.* Na época das expedições marítimas, colonização, da descoberta de novos continentes as tripulações desses navios entravam em contato com os povos nativos, estes marcados corporalmente. “A tatuagem e o brinco passaram, então, a constituir uma importante parcela simbólica da experiência de navegação (…)”
A partir daí as marcas corporais ganharam cada vez mais esse sentido de estigma, no sentido de quem as porta ser socialmente mal visto. De uma “sociedade selvagem”, e nesse sentido inferior, como símbolo pagão e marginalizado (seu processo de importação e apropriação localizou-se em grande média nos guetos das culturas populares urbanas, entre marinheiros, estivadores, prostitutas, membros de gangs, entre outros*) de exóticas, no século XX, passaram a serem tomadas como expressão corporal de patologia criminal, solidificando ainda mais o estereótipo negativo.
Marcas corporais também foram usadas para diferenciarem indivíduos livres de indivíduos submetidos; escravos, “trabalhadores”de campos de concentração, presidiários. Estes últimos em especial deram um novo valor simbólico às marcas, quando começaram a incorporá-las voluntariamente fazendo correspondência a um ato de resistência aos processos de disciplinaçao do sujeito. As tatuagens ganharam assim um valor de rebelião, de contestação social.
Por mais que a sociedade lutasse contra as marcas elas ganharam crescente sucesso depois da II Guerra Mundial, sendo apropriadas por subculturas, tribos, grupos e cenas, mas é claro, num novo contexto. As marcas corporais começam a ser incorporadas a cultura dominante como formas de expressão pessoal e de singularizaçao social*, não mais daquela forma quando as marcas designavam uma coletividade e eram identificados por ela socialmente de forma clara e precisa. Hoje elas têm estão mais ligadas à exclusão do que a inclusão na sociedade como um todo. 
Mas cada vez mais a tatuagem e o piercings, e outras formas de modificação, como o stretching (ou dilatação) tem ganhado mais adeptos e eles são de toda ordem, jovens, adultos, pobre, ricos, com ensino superior, “patricinhas” (como consta numa entrevista do artigo), funkeiros, mães e pais, headbangers, empresários, artistas de cinema etc. 
A incorporação das marcas pelo star-sistem musical, funcionou como meio de relativa aceitação e familiarização social com as marcas corporais (…) ,sobretudo sobre os segmentos mais jovens, para quem freqüentemente essas celebridades constituem referencias culturais identitárias”(soma-se a isso a popularização dos estúdios de tatuagem e a regulamentação dos mesmo, sem esquecer da invenção da máquina de tatuar elétrica, em 1980). A marcas acabam sendo desmistificadas, perdendo parte dessa aura de marginalidade e exotismo, porém sem perder o remanescente expressivo de diferença e de singularidade social.
O underground é onde as tribos se reúnem, cada tribo tem sua característica, sua identidade. O incrível é pensar em como isso é mantido, sendo que esses grupos estão sempre em contato os outros, e em vez de haver uma homogeneização está cada vez mais segmentado (discussão para um futuro post). Tem os tatuados, os muito tatuados, os tatuados com piercing, os que tem a tatuagem seguindo um determinado estilo ou linha, os que só tem piercing, e essas marcas corporais geralmente apontam para um determinado gosto musical, uma determinada vertente, que por sua vez envolve uma “ritualística” ligada a essas marcas.
Ou seja, marcas corporais tem TUDO a ver com underground, e tem muito o que falar sobre isso ainda.
Natália R. Ribeiro
Para este post foi usado como apoio o artigo “Do Renascimento das Marcas Corporais em Contextos de Neotribalismo Juvenil – Vítor Sérgio Ferreira”, presente no livro “Tribos Urbanas: Produção Artística e Identidades – José Machado Pais e Leia Maria da Silva”.

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 15 de maio de 2012, em Posts. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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