Quanto Vale a Música? "Grátis"

Sniffin’ Glue, famoso fanzine fundado em 1976, mais em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Sniffin%27_Glue
Fico imaginando o quão difícil é para uma geração que nasceu após a década de 80, entender que em um determinando momento da história era preciso pagar para ouvir música. Talvez para essa geração um CD seja mais um objeto de culto, como um poster, do que uma mídia de reprodução sonora. 
Antes da digitalização da música e da web 2.0, do formato MP3 e dos sites de compartilhamento, a música circulava por fitas K7, o que representara uma revolução. Antes da fita K7, lançada oficialmente em 1963, popularizada na década de 70, e largamente utilizada até a década de 90, a única opção era o rádio, os discos ou ao vivo.

Para entender melhor o que acontece com o mercado da música na atualidade é importante desnaturalizar a ideia de que a música é, ou sempre foi grátis e também se pensar nas implicações do “grátis” sobre ela.

O início
No final da década de 30 as transmissões de música pelo rádio eram feitas no formato ao vivo, os músicos e os compositores eram pagos por apresentação. Mas como as apresentações eram recebidas por milhares de pessoas, muito mais do que caberiam numa casa de espetáculos numa única apresentação, a ASCAP, American Society of Composers, Authors and Publishers, passou a querer cobrar de 3% à 5% em direitos autorais sobre o faturamento publicitário bruto da emissora de rádio.
As emissoras de rádio decidiram então extinguir totalmente as apresentações ao vivo e passaram a tocar apenas discos nas suas transmissões.
Em resposta a ASCAP convenceu seus membros mais importantes, como Bing Crosby*, a pararem de gravar discos, isso após 1940 quando a Suprema Corte decretou que as estações de rádio podiam reproduzir o disco caso o comprasse.
Com uma oferta cada vez menor de músicas novas para tocar e um pagamento de direitos autorais que as levaria a falência, as emissoras reagiram organizando o próprio orgão de direitos autorais, a BMI, Broadcast Music Incorporated.
A BMI passou a atrair então uma série de artistas do rhythm-and-blues, country, western e músicos regionais, que normalmente eram desprezados pela ASCAP. Em troca de uma maior exposição esse artistas menos populares permitiam que as estações de rádio tocassem sua música gratuitamente.
Com isso o  rádio passa a ser considerado o principal canal de marketing para os artistas, que com uma maior exposição passariam a ganhar mais dinheiro com discos e shows.
“Em vez de acabar com o negócio da música, como a ASCAP temia, o Grátis ajudou a indústria musical a crescer e prosperar significativamente” (ANDERSON, 2009, p.45)
Atualmente com a digitalização da música e os sites de compartilhamento a venda de discos baixou consideravelmente, porém a ideia do grátis como marketing persiste e como Anderson aponta no texto, as gravadoras continuam sendo contrárias ou resistindo de alguma forma.

No underground a distribuição de música gratuitamente possui raízes históricas, primeiramente com as trocas de fitas K7 no final da década de 70, com o movimento Punk, permanecendo até hoje com a troca de músicas online no formato MP3.


* Considerado um dos maiores cantores populares do século XX na década de 30.

Por Natália R. Ribeiro
Referência bibliográfica: 
ANDERSON, Chris.Free: grátis: o futuro dos preços. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. 

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 26 de novembro de 2011, em Posts. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Caramba, que bacana! E o ciclo se repete… Jóia, a matéria!

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