Underground x Indústria Cultural

“Assim é que, ao invés de reduzir o próprio trabalho de fabricação de objetos de arte à condição de uma atividade marginal em relação à cultura, como faz Ardent, um marxista como Adolfo Sánchez Vázquez, por exemplo, pode incluir a própria atividade de produção de objetos de uso e de consumo no campo das atividades artísticas, dado que trabalho e arte não são vistos por ele como contraditórios entre si, mas sim como formas não essencialmente diferenciadas de expressão da natureza criadora do homem. Contudo, conforme ressalta o mesmo Sánchez Vázquez, é própria também do marxismo a percepção do caráter específico do trabalho desenvolvido sob as relações capitalistas de produção como trabalho que perdeu justamente sei caráter criador. O fundamental para essa perda parece ter sido o incremento da divisão social do trabalho, que terminou por expropriar os trabalhadores da habilidade artística que ainda possuíam os artesãos medievais, ao mesmo tempo em que separou radicalmente o projeto da execução, separando o trabalho intelectual do trabalho meramente burocrático e do trabalho manual (…)”

MORELLI, RITA DE CÁSSIA LAHOZ. Indústria fonográfica: um estudo antropológico. SP: Editora Unicamp,2009.
O trecho acima está argumentando sobre a indústria cultural e a transformação da arte em mercadoria. A produção em escala industrial teria separado de vez a obra em si, da sua execução. É isso o que de fato estamos vivendo hoje, a maior parte do que se diz mainstream é planejado visando acima de tudo o capital, é a música comercial. A intenção por hora não é discutir aqui a qualidade ou a procedência da produção da indústria musical atual, mas sim atentar a essa “divisão do trabalho”.
Persiste em muitos artistas do underground a idéia do “não se vender”, tendo a intenção de ter total controle sobre a sua produção, a sua obra, fazem isso concentrando o trabalho, produzindo de forma independente. O underground é aonde os sons que não se encaixaram nas formas da indústria e da grande mídia vão parar, isso os que por ventura tentaram, pois a maioria nem liga, ou mesmo excomunga tal tentativa.
Quando uma banda toca, grava o próprio som, produz o próprio disco e o próprio show é possível dizer que ela tem total controle sobre os meios de produção, o que para muitos era inviável há certo tempo atrás. Todo esse trabalho pode ser desgastante, mas é também bastante satisfatório, pois a resposta do público é imediata e direta.
Por outro lado não podemos dizer que o underground está livre de pretensões mercadológicas, afirmar isso seria um grave erro, mas o mercado em questão é um público de nicho, mais aberto a diferentes sonoridades, e que cada vez mais ganha expressividade. Essa forma de produção peculiar do underground é o que o mantêm como tal, apenas o que defendo aqui é uma otimização dessas formas, não uma industrialização.

Natália RR
 

Fonografia: A indústria fonográfica na era da internet por fonografia no Videolog.tv.

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 9 de março de 2011, em Posts. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. O mercado parece as vezes tomar conta do underground, claro q nao em geral.Você ve bandas lá fora surgindo no mainstream,bandas por exemplo de mtal core, e logo vc v no underground daqui varias bandas de metal core surgindo.Ao meu ver mesmo parecendo só uma tendencia musical , é tambem uma tendencia mercadologica.Nesse exemplo do metal core, podemos ver, pq surgem muitas bandas metal core aqui em meio a explosão de bandas lá fora?……Pq muitas bandas novas underground aqui estao focadas em chegar ao mainstream da novidade lá de fora.Nao estou dizendo q isso seja ruim, mas nao dv ser tbm o unico foco de uma banda em minha opiniao…BJj

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