Questões sobre as meninas no movimento underground

Por: Natália Ribeiro R.

Janeiro de 2010

Falar sobre a questão das meninas no movimento, discutir sobre seus lugares no grupo, não é tão simples quanto parece. Vivemos com a falsa idéia de que a mulher já conquistou seu espaço seja onde estiver, mas isso não é verdade. Cargos mais importantes, salários mais elevados, posições políticas, leis especificas, maior representação, tudo isso foi conquistado à base de muita luta, muitos preconceitos foram derrubados, eu não estou negando isso, mas faltam ainda muitas conquistas.

Ao passo que estamos ganhando representatividade, a imagem da mulher vem sendo cada vez mais denegrida, a sensualidade, a beleza estão sendo postas como as maiores virtudes que uma mulher pode ter, e esses são valores medíocres, voláteis, quando a questão independe dos dotes físicos tudo se complica.

Este é um tema que a muito vem sendo debatido e que se mostra em diferentes círculos sociais, é um tema que está em toda parte, e não poderia deixar de estar presente no underground, que parece ser o lugar onde tudo se agrava.

O underground é efervescente, a juventude costuma fazer sua catarse e explodir por lá, é onde as coisas acontecem mesmo que aparentemente nada esteja acontecendo, é lá que as identidades se afirmam, entre àquelas pessoas. O underground é a fonte disso. Lá existem muitos reflexos das coisas que estão ao redor, é um lugar mesmo para expor e se expor, e cada vez mais será isso que garantirá nossa existência.

Quando uma mina aparece num evento ou num point, muito dificilmente ela estará sozinha, pois há o conhecimento de que aquele ambiente preserva sempre certa hostilidade, certamente a mina que aparece sozinha num evento é alvo de muitos olhares e alvo de comentários.

O fato é que o underground é tomado pelo sexo masculino, as meninas sempre foram minoria, e se tratando de mina que curte som mesmo esse número é ainda mais reduzido. Muitas minas que estão presentes, estão lá de acompanhantes, pouco ou nada curtem de som, o outro tipo que podemos encontrar são as que estão lá não pelo som de fato, elas na verdade não querem participar do movimento, mas outras coisas as atraem, talvez o ambiente, a vontade de experimentar um lugar diferente, por curiosidade, para conhecer novas pessoas, enfim, essas são minas que podem vir a fazer parte de fato do movimento.

Vê-se que em nenhum dos dois casos elas pertencem ao movimento. Para pertencer é preciso agir, ser atuante, conhecer som, trocar informações, comparecer a eventos, estar nos points, saber da galera, conhecer determinadas pessoas, etc. Porém as minas que “agem” acabam por não serem reconhecidas, e por mais que sejam a certa altura, ainda sofrem algum tipo de preconceito ou estão sempre sendo postas à prova.

Ao conversar com os rapazes eles dizem que a maioria está lá mesmo para “dar uma de mina Rock” pra aparecer, pra azarar mesmo. Pode ser bem verdade, mas onde estaria essa minoria? Provavelmente está sendo desestimulada em algum canto.

Os rapazes criticam muito as bandas só de garotas, ou bandas com integrantes mulheres, desencorajam essa atitude, mas essas outras minas, as que não ligam pro movimento, por outro lado, são super encorajadas a permanecer a ele, mas as condições não são deixadas claras, elas pertencerão, mas pertencerão à margem, mas nem todas ficam satisfeitas com essas condições impostas.

Outra questão, é a das meninas que já conseguiram se estabelecer e têm atitudes tão ou mais radicais que a dos rapazes em relação as outras minas que estão chegando ao movimento. Isso acontece por uma questão de território, de poder. Por exemplo, uma banda só que meninas que buscam espaço a um bom tempo numa determinada cena, que conseguiu em fim dizer o que queriam e ter seu som reconhecido, que já atrai um determinado público, ou seja, que já conseguiu seu espaço. Chega agora uma outra banda também só com meninas naquela cena, essa banda não vai precisar abrir ou percorrer todo o caminho daquela primeira banda novamente e dependendo do som atrairá o mesmo público, o clima será sempre de competição entre essas bandas, mesmo que a rixa não seja declarada entre as integrantes das bandas, o público poderá se ocupar disso, essa situação só se amenizará quando o assunto não for mais este, quando o tempo se encarregar da questão ou quando surgir uma terceira banda, até onde eu tenho conhecimento no momento três bandas já consolidadas, só de garotas numa mesma cena é caso inédito, isso na certa abalaria as estruturas do underground.Vai ver que é disso que precisamos.

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Sobre Natália Ribeiro

*Editora do blog Rockalogy desde 2009 *Editora e Produtora do canal Metal Ground *Mestranda em Comunicação Social pela Universidade Federal Fluminense - UFF *Graduação em Estudos de Mídia - UFF *Membro do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação - LabCULT, ligado ao PPGCOM/UFF. *Headbanguer Full Time

Publicado em 31 de março de 2010, em Posts. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Esse post é a parte de um artigo que eu estava escrevendo sobre o tema, por isso preservei a data na qual ele foi escrito.Essa imagem é muito boa, ela transmite bastante o sentimento de uma menina que tem o rock como algo imanente a sua vida, é super sentimental mesmo.

  2. Eu acredito q bandas de meninas tem destaque quando são boas igualmente as de homem, e q em questão de público é a mesma coisa poucas garotas curtem realmente ''som'' as q curtem são respeitadas igualmente aos homens tbm.Sempre haverá pessoas q nao curtem porra nenhuma ,homens e mulheres.

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