Arquivo mensal: setembro 2009

Underground também é cultura

Para entender o underground como cultura, primeiro é preciso desfazer alguns enganos provocados pela polissemia da palavra.

Muitos relacionam cultura com grau de escolaridade e/ou cultura de massa, sendo que o termo cultura usado aqui diz respeito ao conjunto de processos sociais de produção, circulação e consumo de significação na vida social.

Dizer que o underground é cultura é reconhecer sua importância como movimento social, na produção de valores e signos, tão importantes na construção da identidade dos jovens quanto para a de toda uma sociedade.

Uma prova da riqueza cultural do underground é a sua diversidade e a capacidade dessas diferenças coexistirem e até mesmo trocarem elementos entre si. Num mesmo evento se apresentam bandas de Hardcore, New Metal, Classic Rock e Heavy Metal, cada uma com suas especificidades.

Tentar decifrar cada um desses signos, assim como listar e descrever essas especificidades é um trabalho árduo e minucioso, essa não é a proposta principal do Rockalogy, que sempre que for necessário o fará da melhor forma possível.

E agora, qual é a sua cultura?

Condenados a nostalgia?

Essa tendência das bandas voltarem, Black Sabbath, Led Zeppelin, Judas Priest, Testament, etc. e as novas bandas, aonde elas estão, como elas ficam?

Qual a relação dessa tendência com o underground?

O que vem sendo especulado é que esses “rivivals” possuem um forte apelo econômico, em tempos de decadência da “industria” fonográfica, esse achismo se passa por perdoável. Não se pode negar, porém, que esse é um fator influente, mas é falho vê-lo como determinante.
Estamos passando por um momento de baixa na criatividade, perece que tudo que deveria ser feito, já está pronto, restando à banda, produzir mais do mesmo. Em contra partida a falta de simpatia para com as bandas que se “arriscam” em algo novo parece aumentar.
Nesse contexto entram aquelas bandas que tentam reproduzir determinado estilo, que de certa forma, só foram possíveis pois estavam agindo em determinado momento histórico. Isso faz com que essas bandas acabem limitando sua área de atuação aos fãs dessa sonoridade mais Old School e tornem seus possíveis lançamentos pouco ou nada relevantes.
Para os fãs nada melhor como ter a chance de ver e ouvir grandes clássicos ao vivo, e em muitos casos, com a banda em sua formação original. Bandas do final da década de 70 chegam a unir três gerações num mesmo show. Porque embora essas bandas sejam “antigas”, é visível a renovação de seus fãs.

Mas e quando essas bandas acabarem de fato?

Se não acontecer uma ruptura na ordem vigente, é bem provável que vivamos de nostalgia. Não haverá outro Black Sabbath, outro Judas Priest, simplesmente porque perdemos os meios para reproduzir tais fenômenos. Nesses 30, 40 anos muita coisa mudou e a “receita” foi perdida no tempo.

Como romper com a ordem vigente que rege o mundo do Rock de uma forma em geral?

Talvez a resposta esteja mais perto do que se imagina, mas não por isso menos complexa.
Long Live to Underground!

Rock Underground, Uma Etnografia do Rock Alternativo

Livro de Pablo Ornelas Rosa que faz um estudo sobre o movimento underground, usando como campo a cidade de Florianópolis, em Santa Catarina (RS),

Sua leitura viabiliza uma comparação entre a cena de Florianópolis e a cena retratada pelo Rockalogy, a do Rio de Janeiro; mostrando que, o que existe em comum entre esses trabalhos, é justamente a apresentação do underground como forma de cultura, que comporta uma grande variedade de agentes, símbolos e ideologias, embaladas pelas mais diversas vertentes do Rock, e portanto, como movimento de relevância social (muito mal compreendido).

A diferença que existe entre as duas, o fato da cena de lá, ser igual a daqui, e ambas pertencerem ao underground, só reforça o peso cultural e sua expressividade cultural onde quer que a cena se desenvolva.

O livro procura não tratar de um determinado grupo ou vertente específicos, mas na sua leitura fica implícita sua inclinação por um tipo de Rock com elementos mais experimentais, em geral, não tão ligadas ao Heavy Metal, ou à uma sonoridade mais “pesada”. Coisa que num futuro estudo focalizando a cena do Rio de Janeiro, por exemplo, não poderia deixar de ser frisado.

Trabalhos como o de Pablo Ornelas Rosa e do Rockalogy contribuem para o entendimento e compreendimento dessa “forma de expressão”, pelos próprios indivíduos que a compõem e também por pessoas fora desse meio. Pois como foi dito no final do último post, essa falta de entendimento, tanto por quem “está dentro”, quanto por quem “está fora”, faz com que o movimento perca sua força e mesmo a sua identidade.

Pra finalizar o texto dessa semana o Rockalogy gostaria de lembrar a todos que passam por esta página e lêem seu conteúdo que o papel de vocês também é essencial para a manutenção do movimento underground. Esta pagina está aberta a participação de qualquer um esteja disposto a colaborar.

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